quarta-feira, 16 de abril de 2014

25 - “A tua Cinderela fica…um mês?”

Marcos poderia esperar qualquer pessoa ali menos a que tinha na sua frente. Podia ter sido o presidente do clube a estar ali, o seu treinador, algum amigo…qualquer uma destas hipóteses era válida. Mas não...
Contrariamente ao esperado, a pessoa que tinha na sua frente era a única que ele não esperava ter…ter Ania na sua frente fez o seu mundo dar uma volta de 180º, fez com que o seu coração disparasse, fez com que o chão parecesse querer fugir…mas nada disso aconteceu. Não aconteceu nada porque ela estava ali e o abraçou, unindo os seus lábios com os dele…matando um pouco aquela saudade que os consumia.


- O que é que tu estás aqui a fazer? – Foi um beijo demorado, carregado de saudade e amor. Aquele amor que lhes é tão característico. Marcos encostou Ania à parede, fechando a porta.
- Olha as malas… - Ania riu-se, voltando a abrir a porta para colocar as duas malas que trazia, dentro de casa. Rodeou a cintura de Marcos com os seus braços, voltando a beijá-lo – Surpresa de namorada cheia de saudades…
- É surpresa mesmo…Ania, passou uma semana e já estás aqui…
- É assim tão mau? Está aqui alguma russa, é isso? – Ania começou a espreitar para dentro da casa, mas Marcos colocou as suas mãos no pescoço de Ania, fazendo com que os olhos de ambos ficassem num contacto permanente.
- Eu tinha tantas saudades tuas…
- Por eu ter mais saudades ainda é que aqui estou.
- Eu não estou a acreditar…eu vou puder adormecer mesmo contigo?
- Vais. Vais adormecer comigo, acordar comigo, almoçar comigo…fazer tudo comigo.
- Tudo…
- Tudo meu amor – Ania voltou a beijar Marcos, percorrendo as costas dele com as suas mãos.
- E como é que está tudo por lá?
- Tudo normal…a tua mãe está óptima, as meninas estão na escola. Tudo cheio de saudades tuas, mas…há mais surpresas Marcos.
- Elas também vieram?
- Não gordi…elas têm as coisas delas para fazer, mas em Março há duas semanas de férias e aí sim elas vêm. Aliás, todos. As meninas, a tua mãe, o Franco…e eu. É essa a surpresa…mas é só em Março…perto dos teus anos.
- Ai…mas eu tenho-te aqui – Marcos apertou Ania mais para junto de si, roçando com o seu nariz no dela.
- Tens…tens-me aqui só para ti durante…quanto tempo?
- Uma semana?
- Chega para ti?
- Chegar não…mas já era muito bom.
- A tua Cinderela fica…um mês?
- Um mês?! – Marcos estava estupefacto com o que Ania lhe acabara de dizer.
- É muito…? Se quiseres eu fico menos tempo.
- Não sejas parva! Não estava era nada à espera disso…
- Eu sei que está a ser difícil para ti esta semana e como este mês todo ficas por cá…a Ania fica contigo. Depois em Fevereiro tens o estágio, eu volto para La Plata e em Março estou cá de novo.
- Para ficar? – Marcos queria, imenso, que a sua Ania ficasse a viver com ele, ali em Moscovo.
- Não sei, não sei gordi…mas agora ficamos assim, está bem?
- E já é tão bom! – Marcos pegou em Ania ao colo, rodopiando com ela nos seus braços.

Depois de mostrar o apartamento a Ania e de ela comer um pequeno lanche com o seu namorado, os dois foram até ao quarto, onde Ania viu a vista que Marcos tinha daquele apartamento.
- Acho que é a segunda vez que vejo neve na minha vida – comentou ela, mirando o que estava do outro lado do vidro. O sol estava a pôr-se e estava a ganhar uma cor diferente.


Ania estava com imenso sono…a viagem tinha sido longa e a diferença horária estava a fazer-lhe confusão.
- Por aqui é só o que se vê – Marcos chegou perto dela, rodeando a cintura com os seus braços. Ania deixou a sua cabeça encostada em Marcos e sentiu o seu corpo relaxar.
- Estou com sono…
- Dorme, então, princesa.
- Ainda agora cheguei e já vou dormir?
- A viagem é longa, Ania…anda lá – Marcos começou a andar com Ania nos seus braços, até que chegou à cama. Ania deitou-se e Marcos fez o mesmo, ficando bem agarradinho a ela – dorme o tempo que precisares.
- Acorda-me à tua hora de jantar…tenho de ficar com as horas de cá – Ania colocou a sua mão por dentro da camisola de Marcos, encostando completamente o seu corpo no dele.
- És a melhor namorada do mundo…e estares aqui…é um sonho.
- Não, não é Marcos…estamos os dois acordados e nenhum está a sonhar – Ania deu-lhe um beijo para, de seguida, esconder a sua cara no peito do namorado e adormecer.
Marcos, durante a pequena hora que Ania dormiu, andou a trocar o olhar entre ela e a televisão. Quando a fome começou a apertar, decidiu acordar a sua namorada (tal como ela tinha pedido). Ele não o queria fazer…mas era melhor ela habituar-se ao horário novo.
Colocou a sua mão dentro da camisola de Ania, começando a roçar o seu nariz no dela.
- Marcos…deixa-me dormir mais um bocadinho – Ania colocou a sua mão em cima da cara de Marcos, afastando-a um pouco.
- Cinderela…já é hora de jantar.
- Mesmo assim, só mais uns minutinhos – Ania colocou a sua perna por cima da de Marcos, aninhando-se nele.
- Minha bebé… - Marcos começou a percorrer as costas da namorada – vá…Ania, temos de falar.
- E não podemos falar depois?
- Não – Marcos queria parecer que o assunto era importante, mas acabou por se rir – até podíamos…mas depois já é tarde.
- Tarde?
- Sim…bom, há um argentino do clube. É o Nico…Nico Pareja.
- Desconheço, Marcos.
- Eu também desconhecia…ele tem sido o meu grande amigo por aqui…e ele é casado.
- Sim…
- Bom e ele tem uma filha, a Salomé.
- Que nome bonito!
- É…e ela é linda. Bom e eles andam a precisar de estar os dois…e eu não pensava que tu ias estar aqui hoje…a Salomé vem cá para casa, dentro de 40 minutos.
- Marcos…tu ias tomar conta da menina sozinho?
- Ia…
- Esse Nico não deve mesmo saber quem tu és…
- Ania!
- Nunca te vi com uma criança…a Salomé tem que idade?
- 14 Meses.
- Vamos ser babysitters hoje – Ania adorava crianças. A pureza com que eles olham as pessoas, o carinho que lhes dão sem ser preciso um abraço, a inocência que têm, a protecção que precisam…Ania queria muito ser mãe, pelo menos antes de tudo ter acontecido.
- Que brilho é esse?
- Qual brilho?
- Nesses olhos…
- Não sei, será que é dos ares de Moscovo? – Ania decidiu brincar com a situação, sabia que Marcos iria falar das crianças.
- Olha…não é dos ares não. É mesmo das crianças.
- Isso não é assunto para agora.
- Porque?
- Porque…nunca mais falei sobre isso.
- Filhos?
- Sim…depois de tudo, nunca mais pensei como pensava – Marcos olhava para Ania, esperando a continuação do raciocínio da namorada. Mas parecia que não iria sair nada daquela boca.
- E…como é que pensavas?
- Que, quando tivesse a certeza de que tinha um homem a sério, ia começar a pensar em filhos…sempre quis ser mãe, mas não sei se agora quero, entendes?
- Mas por causa do que aconteceu?
- Não…porque nunca mais pensei nisso…
- Eu quero ser pai. Uma menina e um menino para começar.
- A sério…?
- Sim, mas queria ter quatro filhos. Com a vida que tenho é complicado…mas adorava que assim fosse. Casa cheia, filhos únicos não.
- Acho que é por termos muitos irmãos…sempre pensei em ter mais do que um, também…
- Ania…posso ser o pai dos teus filhos? – Marcos estava a ter a conversa que sempre quis ter com Ania. O sonho dele é constituir família, ter filhos a quem passar os seus valores, casar com a mãe deles…e viver a maior felicidade que conseguir.
Ele tem Ania, a única rapariga que é capaz de o fazer sentir assim: ser capaz de ter uma família, de ser feliz e viver essa felicidade com ela.
- Podes…mas não agora, sim? A Salomé deve estar a chegar e… - Marcos não deixou que Ania acabasse o seu raciocínio e beijou-a. Tinha a certeza que ela tinha respondido conforme aquilo que lhe passava pela cabeça e pelo coração. Marcos sabia que ela tinha respondido de impulso…mas quando Ania pensa e responde assim é quando tudo faz mais sentido.
- Quero duas meninas e dois meninos, a primeira podia ser uma meninas…assim tinha só princesas em casa.
- Acalma lá os cavalos, Marcos Rojo, que eu não vou ser mãe nos próximos meses!
- Sim…não convém porque eu quero acompanhar a gravidez toda, o parto e nos próximos meses é complicado…mas olha quando vieres viver para cá…podíamos começar a treinar…a testar o produto… - Marcos começou a percorrer as costas de Ania com a sua mão e ela desmanchou-se a rir.
- Acho que, quando eu engravidar, vais dar em louco Marcos.
- Não…vou ser ainda mais apaixonado por ti – Marcos envolveu-se num beijo carregado de amor e, ainda, saudade, parando só quando já sentia alguma falta de ar – e que nomes vamos dar aos nossos filhos?
- Marcos…eu sei lá.
- Podemos fazer uma aposta?
- Apostas? Sobre o nome dos nossos filhos?
- Sim…
- Eu vou arrepender-me disto…mas sim, podemos.
- Se o primeiro for uma meninas, sou eu que escolho.
- Se for menino escolho eu?
- Sim.
- Feito – os dois apertaram a mão um do outro e Ania perdeu-se nos olhos do namorado.
Via que ele estava cansado, um pouco abatido mas, sobre tudo isso, via uma felicidade enorme, um brilho naqueles olhos que nem sabia descrever. Apenas o abraçou, até que a campainha tocou.
- São eles! Anda – os dois levantaram-se, Ania ajeitou o cabelo e a roupa e foram até à porta. Marcos abriu-a e, do outro lado, estava um rapaz de cabelo moreno, uma rapariga muito bonita e um carrinho de bebé.
- Boas noites – Marcos cumprimentou-os aos dois, apresentando Ania – é a Ania, a minha namorada. Ania é o Nico e a Lola, os pais da Salomé.
- Encantada – Ania cumprimentou os dois e voltou a ficar ao lado de Marcos.
- Tiveste surpresa da namorada tu… - comentou Nico – e agora ficam com a menina…nem pensar.
- Não, não, a Salomé fica – disse logo Ania, com um sorriso contagiante.
- Mas, não queremos atrapalhar – Lola falou com uma voz completamente doce.
- Não atrapalham em nada…ele quer ser pai, nada melhor do que isto para começar a treinar – o riso foi geral e acabaram por receber algumas indicações sobre o que fazer.
Depois de Nico e Lola saírem, Ania foi aquecer o biberão para Salomé. Já estava na hora de o tomar e assim não iria ter uma bebé rabugenta. Depois de aquecer o leite para a menina, voltou à sala onde estava Marcos com Salomé.
- Mas o que é que tu estás a fazer!?